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Em maio de 2018, o Brasil foi “pego de surpresa” por uma paralisação que vai ficar para a história do transporte de cargas. Caminhoneiros de todas as partes do país se mobilizaram por meio das redes sociais e iniciaram uma greve que durou 11 dias. A paralisação, que ficou conhecida como “greve dos caminhoneiros”, mostrou a força dessa categoria e também expôs pontos que estavam saturados no segmento há algum tempo.

Entre as reivindicações estavam o controle no reajuste do diesel (que até então tinha tarifas atualizadas diariamente), piso mínimo de frete, pedágio livre para eixos suspensos (quando o caminhão não está carregado), entre outros. Foram dias de muitas tentativas e negociações com representantes, que, mesmo com reuniões e encontros com setores do Governo nas esferas Federal e Estadual, não chegavam a acordo algum.

Enquanto isso, os bloqueios nas estradas tomavam grandes proporções, assim como os boatos viralizando nas redes sociais. Os produtos não chegavam aos pontos de venda e, em uma semana de greve, a situação já se refletia nas casas dos brasileiros. Faltou da margarina ao gás, o transporte público começou a desaparecer, pois, sem combustível chegando aos postos, muitas empresas de ônibus deixaram mais da metade de suas frotas nas garagens. As filas nos postos de gasolina, assim como as confusões, aumentavam.  

“Um ano depois, nós ainda estamos sob o efeito da greve e com medo de uma nova paralisação. Isso hoje pode causar aumento nos transportes, no frete, nos alimentos e vai puxar ainda mais a inflação, tirando da meta dos 4%. Costumo dizer que é um efeito do tipo jogo de xadrez, quando você está querendo dar um xeque-mate. Estamos em um tabuleiro que, a cada peça que você movimenta, vai mover um item da economia, política e mercado”, afirma o doutor Alessandro Azzoni, advogado e economista.

Segundo Azzoni, as pessoas precisam entender que, em momentos assim, não se deve  deixar abalar e pagar preços estratosféricos em 1 kg de batata ou cebola, como ocorreu naquele momento, porque aquela situação era uma crise de abastecimento temporária e não de produção. “A população não tem que entrar em desespero achando que vai acabar a comida no supermercado, porque isso jamais vai acontecer, uma vez que nós temos uma produção contínua. O que pode ocorrer é precisarmos de um tempo relativo a uma ou duas semanas para equilibrar as reposições. Nosso setor agropecuário é muito ativo, assim como a sua produção. Então, não há essa necessidade de sair correndo, caso haja nova paralisação”, alerta.

Já o pesquisador e professor de Logística da Escola Superior de Engenharia e Gestão, João Ferreira Netto, aponta para a questão da dependência: o transporte rodoviário é o mais utilizado no país, o que nos torna dependentes dessa modalidade: “O que ocorreu ano passado foi bem impactante, porque a nossa economia depende muito do modal rodoviário e isso fez com que tivéssemos uma paralisação de todas as atividades econômicas ou grande parte delas”, afirma. “ Quando a gente compara com outros países, grandes economias, vemos que nosso cenário é muito desproporcional. Precisamos considerar a busca por alternativas ao modal rodoviário”, explica.  

A falta de combustíveis na greve

Ao falarmos do ocorrido, não há como nos esquecermos das filas nos postos de gasolina. Com os bloqueios nas estradas, nem mesmo os caminhões que vinham das refinarias conseguiam chegar até os postos para o reabastecimento. Com isso, a população começou uma verdadeira “corrida do ouro”. Houve casos de pessoas que estocaram o combustível em galões, dentro de casa.

Alguns estabelecimentos não davam conta deatender todos os clientes e acabaram sendo alvos até de vandalismo. Segundo José Alberto Paiva Gouveia, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado de São Paulo (SINCOPETRO), alguns postos também foram muito impactados e, um ano depois, alguns deles ainda sentem o prejuízo. “Foi um movimento que todos entenderam e não tínhamos nada contra. Realmente era um problema que eles estavam discutindo e que era válido, mas isso nos prejudicou muito e até hoje estamos tentando nos recuperar. Teve posto de gasolina que não conseguiu se levantar. A categoria ainda está em recuperação e sentindo os reflexos. Vamos precisar de mais um bom tempo para a retomada”, conta.

O presidente do SINCOPETRO também conta que, naquela ocasião, o combustível realmente estava em falta nos estabelecimentos: “Os postos pararam por quase 15 dias e não tínhamos produtos. Até repor os estoques foram mais cinco dias. Para nós, foi um prejuízo monstruoso que ficou por isso mesmo. Todos se preocuparam com os caminhoneiros, mas não eram só eles. Tínhamos distribuidoras que não conseguiam carregar e os postos de gasolina que não recebiam o combustível. A culpa não era do posto, que estava aberto para vender.”, explica.

Conquistas e impactos

Ao final da greve, 11 dias depois, o Governo atendeu as principais reivindicações dos caminhoneiros, entre elas a fixação de valor para o diesel, durante um período, a criação da Lei do Frete Mínimo e a isenção de pagamento de pedágio para caminhões com eixos suspensos (sem carga).

“Os caminhoneiros estão no direito deles de pleitear melhores condições. Ao mesmo tempo, eles têm uma responsabilidade com o desenvolvimento nacional e precisam colocar na balança: uma vez que eles prejudicam esse sistema econômico, também serão atingidos. Já tiveram a constatação do poder e da força, na greve passada. Logo, eles têm um desafio para entender melhor essa situação para não perderem o apoio da opinião pública”, aponta o professor de Logística, da ESEG.  

Greve dos caminhoneiros: um ano depois

Rumores sobre novas paralisações em 2019

Em março, também com início nas redes sociais, surgiram novos boatos sobre uma possível paralisação, o que deixou a população e o Governo em alerta. Porém, sindicatos e demais federações da categoria negaram qualquer movimentação ou apoio, pois ainda aguardam resoluções para alguns pontos reivindicados ano passado e não viam motivo para uma greve.

Anúncio do Governo

No dia 16 de abril, o Ministério de Infraestrutura apresentou, por meio de coletiva de imprensa, um conjunto de medidas em benefício dos caminhoneiros autônomos. Entre melhoramentos estão linhas de crédito de R$ 30 mil, criação de nova tabela de fretes, fomento para cooperativas e R$ 2 bilhões que serão destinados para obras e manutenção das rodovias.

Diante de muitos impactos e movimentações, os especialistas foram unânimes em reforçar que, antes de iniciar qualquer tipo de paralisação, o diálogo é a ação mais importante para que não haja perdas em lado algum.

*Por Mônica Silva

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