Em 2025, cada veículo monitorado pela Cobli registrou quase o dobro de distrações ao volante em relação a 2024. No mesmo período, os eventos de excesso de velocidade recuaram. Para quem gere a frota, esses dois movimentos simultâneos têm uma consequência: reduzir o excesso de velocidade sem identificar a distração não reduz o risco de sinistros na operação.
A Cobli publica anualmente o Index de excesso de velocidade e de distração no trânsito, cruzando dados comportamentais extraídos da base de veículos monitorados em todo o Brasil. A edição de 2026 é a primeira a comparar dois anos completos de operação, o que permite identificar tendências de comportamento que análises pontuais não revelam. Confira o que o estudo revelou.
A distração ao volante cresceu enquanto a velocidade em excesso recuava
A distração ao volante, como o uso de celular, fadiga (bocejos e olhos fechados) e uso de cigarro, é o fator de risco mais difícil de detectar sem o uso de tecnologia. Diferente do excesso de velocidade, que gera registros de infração e alertas automáticos, a distração não deixa rastro visível para o gestor, a menos que haja uma câmera presente. Afinal, um motorista que desvia o olhar da via por alguns segundos a 80 km/h percorre dezenas de metros sem atenção à pista, sem nenhum dado gerado para análise.
Os dados da base Cobli mostram que esse comportamento cresceu de forma expressiva em 2025. Em 2024, a base registrou 1,9 milhão de eventos de distração ao volante. Em 2025, esse número chegou a 3,7 milhões, um aumento de 91,4%. Parte desse crescimento se explica pela expansão da base monitorada. Por isso, a análise utiliza uma métrica que isola esse efeito.
A Cobli utiliza a taxa de distração por dispositivo, que mede o comportamento de cada veículo individualmente. Por essa métrica, a média mensal passou de 14,5 eventos por dispositivo em 2024 para 26,0 em 2025. Em março de 2025, o pico chegou a 29,92, o maior valor registrado na série histórica.
Esse resultado confirma que o crescimento vai além da expansão da frota monitorada. Cada motorista está se distraindo com uma frequência significativamente maior.
Segundo dados da Abramet, o uso do celular ao volante torna as reações do motorista 35% mais lentas. A 80 km/h, esse atraso representa dezenas de metros percorridos sem controle efetivo da direção.
O Brasil ocupa o 3º lugar global em mortes no trânsito, segundo a OMS, com média de 30 mil fatalidades anuais na última década. Já a PRF registrou queda de 2% nas mortes em rodovias federais em 2025. No entanto, os dados da base da Cobli mostram que essa leve melhora convive com o crescimento acelerado da distração ao volante.

O que a taxa por dispositivo revela que o número total esconde
Em fevereiro de 2024, um veículo percorria, em média, 258 km antes de registrar uma distração. Em 2025, essa distância caiu para a faixa de 105 a 127 km. O tempo médio até o primeiro evento também reduziu: de 300 minutos para 150 a 180 minutos.
Para um veículo comercial que percorre 400 km por dia, o número de distrações por jornada subiu de 1,8 para 3,1 ocorrências, um aumento de quase 70% na frequência por turno.
Na prática, isso significa que uma rota de cerca de duas horas já carrega a expectativa estatística de ao menos um evento de distração. Para operações sem monitoramento ativo nessa janela, esse risco só aparece depois que gera um sinistro.
O fenômeno da migração de severidade no excesso de velocidade
O excesso de velocidade responde por quase 67% das autuações em rodovias, segundo dados da PRF. Em 2025, a base Cobli registrou 54 milhões de eventos de velocidade, queda de 1,8% em relação aos 55 milhões de 2024. Olhando só pelo volume total, a leitura seria de melhora, mas a distribuição por nível de severidade mostra um quadro diferente.
Os eventos classificados como gravíssimos (acima de 50% do limite permitido) recuaram de 37,79% para 34,59% do total. Os eventos na faixa grave (entre 21% e 50% acima do limite) aumentaram de 55,27% para 57,37%.
Ou seja, o condutor reduziu o excesso mais extremo, mas, ainda assim, 57% das frotas continuam operando na faixa grave, patamar suficiente para gerar multas, desgaste acelerado de componentes e risco de acidentes fatais. Para o gestor, esse dado indica que a política de velocidade da operação ainda não mudou o comportamento de fato, mas pode indicar que o motorista aprendeu a evitar o risco gravíssimo, porém segue acima do limite no dia a dia.
O “triângulo de risco” no centro do Brasil
Em 2024, Rondônia liderava o ranking de infrações gravíssimas de velocidade. Em 2025, três estados do Centro-Oeste passaram a concentrar os índices mais altos, sendo eles Goiás (44% das infrações na faixa gravíssima), Mato Grosso (43%) e Tocantins (42%). Entre as capitais, Cuiabá lidera com 44%, seguida de Recife e São Paulo, ambas com 41%.
Mato Grosso merece uma atenção especial porque está no topo do ranking de velocidade gravíssima em 2025 e registrou crescimento de 144% em eventos de distração em 2024, concentrado entre junho e setembro daquele ano. Para gestores com operações nesse corredor, os dados dos dois anos confirmam risco elevado nas duas variáveis.
O período da tarde concentra os dois riscos ao mesmo tempo
A análise por período do dia mostra que a tarde é o momento de maior exposição combinada. É quando a taxa de distração por dispositivo atinge 6,48, o valor mais alto do dia, e quando os eventos de velocidade gravíssima chegam a 7,8 milhões de ocorrências.
Veja como a taxa de distração variou entre 2024 e 2025 por período:
| Período | Taxa 2024 | Taxa 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Manhã | 2,56 | 3,94 | +54% |
| Tarde | 4,32 | 6,48 | +50% |
| Noite | 3,25 | 5,12 | +57% |
| Madrugada | 1,42 | 2,42 | +70% |
O crescimento mais expressivo em termos proporcionais ocorreu na madrugada (+70%). O trânsito reduzido nesse período tende a diminuir a percepção de risco, o que aumenta a frequência de comportamentos como uso do celular e dispersão da atenção.
Para o gestor que precisa definir janelas prioritárias de intervenção, o período da tarde combina o maior volume de eventos de velocidade com a maior taxa de distração do dia, o que eleva a probabilidade de ocorrências com dano. Se a sua operação concentra rotas nesse horário, é nele que o monitoramento precisa ser mais rigoroso.
Um estado reverteu a tendência, e os dados mostram por quê
Enquanto os indicadores nacionais apontam atenção, Roraima apresentou comportamento diferente. No segundo semestre de 2024, o estado reduziu sua taxa de distração por dispositivo para 06 ocorrências mensais. No início do primeiro semestre de 2025, a taxa voltou a subir, chegando a 10. Ao longo do mesmo período, recuou para 04.
Essa oscilação indica que reverter uma tendência negativa exige mais do que uma ação pontual. O monitoramento contínuo dos indicadores e a intervenção nos momentos de recaída é o que sustenta a melhora. Sem visibilidade sobre quando a taxa sobe, o gestor não tem como agir antes que o indicador piore novamente.
O que você encontra no Index Maio Amarelo 2026 da Cobli
O Index reúne a análise completa dos dados de distração ao volante e excesso de velocidade extraídos da base Cobli durante 2025, com comparativo em relação a 2024. A metodologia de taxa por dispositivo é aplicada em toda a análise, o que permite observar o comportamento individual de cada veículo independentemente do crescimento da base monitorada.
O material inclui:
- Ranking completo de estados e capitais por taxa de distração e excesso de velocidade;
- Mapa de calor com a distribuição geográfica do risco no Brasil;
- Tabelas comparativas de 2024 vs. 2025 por métrica e período do dia.
O Index é um material de referência para gestores de frota que precisam embasar decisões de política de condução, treinamento de motoristas e escolha de tecnologia. Para assessores de imprensa e analistas do setor, os dados são de uso livre mediante citação da fonte.



